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O fornecimento de eletricidade em áreas remotas e isoladas representa um grande desafio no Brasil, devido às dimensões continentais do país e à dificuldade de acesso a regiões como a Amazônia Legal. Com a expansão comercial dos biocombustíveis, ganha espaço o uso de sistemas híbridos com biodigestores. Essas estruturas integram a produção de biogás e biometano — gerados a partir da decomposição de matéria orgânica — a outras fontes renováveis, geralmente painéis solares.

“É uma oportunidade a ser desenvolvida. O potencial existe especialmente onde há disponibilidade local de resíduos, podendo complementar outras fontes renováveis e reduzir a dependência do diesel”, avalia Josiani Napolitano, presidente-executiva da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás).

Iniciativas como Luz para Todos, Pró-Amazônia Legal e Mais Luz para a Amazônia vêm ganhando força ao adotar soluções mais limpas e sustentáveis para fornecer energia às populações ribeirinhas, indígenas e quilombolas. Para o Ministério de Minas e Energia (MME), o Brasil possui vantagens relevantes para ampliar o uso de biodigestores e a produção de biogás e biometano, principalmente pela disponibilidade de biomassa e resíduos orgânicos decorrentes da produção agropecuária, agroindustrial e sucroenergética, o que permite produzir energia de forma descentralizada e próxima aos locais de consumo, inclusive em regiões onde a infraestrutura energética convencional é mais limitada.

O MME aprovou orçamento de R$ 6 bilhões em 2026 para o Luz para Todos, que prevê em seu arcabouço o uso de biomassa e sistemas híbridos, ainda que não sejam hoje as soluções prevalentes nos contratos voltados às regiões remotas, que utilizam principalmente a energia solar fotovoltaica. Nas áreas remotas da Amazônia Legal, já foram atendidas 102 mil famílias (407 mil pessoas) pelo programa.

Por meio do Pró-Amazônia Legal, que prevê a substituição de geradores a óleo diesel por fontes renováveis em locais isolados, a britânica Aggreko, geradora de energia móvel e modular, vai investir R$ 920 milhões em 24 localidades do Amazonas, incluindo Tabatinga, Benjamin Constant, Carauari, Eirunepé, Fonte Boa e Japurá. O projeto-piloto, em Caiambé, distrito de Tefé (AM), entrou em operação em maio de 2026. “O projeto validou as alternativas para a transição energética nos sistemas isolados da região Norte, que historicamente dependem do diesel e sofrem com a logística complexa de transporte de combustível nos períodos de seca dos rios”, destaca Cristiano Lopes Saito, diretor de vendas utilities Brasil da Aggreko. O sistema combina três tecnologias: geração térmica, usina solar fotovoltaica e armazenamento de energia em baterias.

Outra experiência de integração entre diferentes fontes renováveis ocorre no projeto-piloto Cozinhas Solidárias Sustentáveis, que combina biodigestores e geração solar. Fruto de uma articulação entre a Itaipu Binacional e a Cáritas Brasileira, a iniciativa atua em seis cozinhas comunitárias — entre elas, unidades em Ananindeua (PA) e Boa Vista (RR) —, abrangendo as cinco regiões do Brasil. Juntas, oferecem 1.500 refeições diárias. Os resíduos orgânicos são transformados em biogás e biofertilizantes, contribuindo para a redução dos custos operacionais e fortalecendo as hortas comunitárias. “A energia é um dos maiores desafios, já que o alto custo do gás de cozinha consome parte significativa dos recursos e, em alguns contextos, leva ao uso de fontes inseguras, como lenha ou carvão, aumentando riscos à saúde e impactos ambientais”, diz Giovanna Kanas, coordenadora de projetos da Cáritas Brasileira.

Um dos primeiros sistemas híbridos instalados no Brasil ocorreu na comunidade Vila Restauração, em Marechal Thaumaturgo (AC), quase na fronteira com o Peru, localidade habitada por 200 famílias ribeirinhas e cujo acesso é exclusivamente fluvial. Implantado em 2021 pela Energisa com investimento de R$ 20 milhões, é composto por painéis solares, sistema de baterias de íon de lítio para armazenamento e dois geradores de backup movidos a biodiesel (ou biocombustível), e substituiu antigos geradores a diesel que funcionavam por apenas três horas diárias.

Para Gabriel Mussi, diretor de grandes clientes na (re)energisa (marca da Energisa), a experiência mostra que esse tipo de solução pode ser uma alternativa viável para outras comunidades remotas, especialmente em localidades onde a extensão da rede convencional não é a opção mais eficiente do ponto de vista técnico, econômico ou ambiental.

A despeito das iniciativas em andamento, para os especialistas, o uso de sistemas híbridos com biodigestores encontra-se em estágio de transição e ainda carece de escala em políticas públicas definitivas de universalização para todo o interior remoto. Para o presidente da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), Pedro Maranhão, os principais desafios são o alto custo de implantação e manutenção e a falta de políticas públicas e incentivos. “O investimento inicial em equipamentos, como biodigestores de modelo mais eficiente, é um obstáculo, especialmente para comunidades de baixa renda.”

Fonte: Valor Econômico

https://valor.globo.com/publicacoes/especiais/energia/noticia/2026/09/30/uso-de-sistemas-hibridos-ganha-espaco-e-garante-fornecimento-continuo.ghtml