Valor Econômico – 19/08/2026
O Brasil tem tudo para ser uma potência no mercado da mineração urbana (extração de metais e minerais de lixo eletrônico, como celulares e computadores): diversidade de fontes de energia renovável, aumento progressivo no consumo de equipamentos eletrônicos e avanço da indústria da reciclagem. Esse mercado gigantesco e multibilionário, no entanto, permanece praticamente inexplorado no país, que gera 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano (quinto maior produtor global), mas recicla apenas 3% desse total, segundo dados do Monitor Global de Lixo Eletrônico da Organização das Nações Unidas (ONU).
“O Brasil detém um enorme potencial para a indústria da reciclagem, mas os gargalos se concentram na coleta de materiais secundários, mecanismos de rastreabilidade e na redução do custo (econômico e ambiental) de transporte”, avalia a pesquisadora Lucia Helena Xavier, do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), unidade do Ministério da Ciência, Tecnologia Mineral (Cetem), unidade do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Devido à forte dependência externa, os países do G7 decidiram combinar esforços e impulsionar a reciclagem para garantir o acesso a minerais essenciais para a transição energética e tecnológica de baixo carbono, reduzindo a dependência de fornecedores únicos, como a China. No Brasil, a falta de coleta seletiva, uma logística reversa frágil e o alto custo da reciclagem ainda são entraves para o desenvolvimento desse mercado.
A estimativa é que das cinco mil empresas fabricantes ou importadoras do mercado eletroeletrônico, somente 180 (ou 3,6%) financiam a logística reversa, segundo estudo da Green Eletron, gestora de logística reversa. “O Brasil ainda está em estágio inicial na mineração em comparação a países da Europa e Ásia, mas já existe uma cadeia de reciclagem funcional para eletroeletrônicos, pilhas e baterias. Atualmente, boa parte dos minerais críticos usados pela indústria nacional ainda vem de importação e de extração primária, não de fontes recicladas, e isso mostra o tamanho da oportunidade ainda não explorada”, diz Ademir Brescansin, gerente-executivo da Green Eletron.
O setor vive a expectativa da aprovação do Projeto de Lei nº 2.780/2024, que passou na Câmara dos Deputados e aguarda votação no Senado, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). O texto prevê a criação de um programa com incentivos federais da ordem de R$ 5 bilhões ao longo de cinco anos. Para a pesquisadora do Cetem, a regulamentação é importante caminho para estimular as práticas de economia circular, como a mineração urbana. “Pode colocar o Brasil em posição de protagonismo mundial no setor em curtíssimo tempo”, observa.
Mapeamento do Centro de Tecnologia Mineral aponta que o Brasil já possui tecnologia em nível laboratorial e de testes (planta-piloto) para processar minerais estratégicos, como alumínio, cobre, ferro, lítio, cobalto, nióbio, tântalo e terras raras. Contudo, para que essas tecnologias sejam transferidas para a indústria, é preciso superar três desafios: fortalecer a logística reversa, garantir incentivos econômicos e consolidar a regulação do setor.
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