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Valor Investe – 04/08/2026
Há cinco anos, escrevi nesta coluna um artigo sobre moda e sustentabilidade. Era 2 de novembro de 2021 e estávamos vivendo a impensável e trágica covid-19. No artigo ESG não é moda. Mas está na moda, reuni dados de como esse ecossistema afeta o meio ambiente e as pessoas, e propus reflexões sobre sua influência em comportamentos, formação de tendências e modelos. Destaquei, ainda, o repensar que a pandemia estava nos trazendo: vestir e calçar itens mais confortáveis, racionalizar o consumo e reutilizar roupas, tendo a moda como uma expressão de quem somos, e não uma resposta a um padrão imposto.
Volto ao tema agora, impressionada com uma visita que fiz em julho ao Rio Grande do Norte, onde conheci o maior polo fabril da América Latina, uma plantação de algodão agroecológico e uma pequena confecção. Antes de detalhar esses dias, vamos a alguns números da moda no contexto ambiental:
- é responsável por cerca de 8% a 10% das emissões mundiais de gases de efeito estufa;
- é a segunda indústria que mais consome água: cerca de 90 bilhões de metros cúbicos por ano, que são usados nas lavagens de jeans e nas químicas de tingimento e curtição dos couros, por exemplo;
- gera cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano no mundo e 4 milhões de toneladas no Brasil, sendo que 80% desse total vai para aterros ou lixões, conforme dados da ABREMA e da Fundação Ellen MacArthur.
Impactos socioambientais não são exclusividade desse setor, bem sabemos. O relevante é ter tudo mapeado e gerenciado, procurar soluções para reduzir a pegada ecológica, inovar em insumos, produção e cadeia de fornecedores. Enfim, é necessário rever o negócio — um imperativo para empresas, governos, instituições e cidadãos em um mundo que deve, urgentemente, mudar o seu jeito de funcionar, incluindo as questões ESG no E do econômico, resultando no EESG que tanto prego (ver meu artigo de 2020: EESG, o novo ESG).
Com isso em mente, aceitei o convite da Riachuelo – a maior empregadora de moda do Brasil – para participar de uma expedição à fábrica Guararapes (que produz cerca de 40% do vestuário que chega às suas lojas), conhecendo também parceiros sociais e de negócios. Essa não foi uma tratativa comercial, é importante esclarecer. Sempre aceito bons convites para conferir como as empresas estão operando nesse imenso Brasil.
Começamos pela fábrica, que fica na região metropolitana de Natal e me impressionou por suas instalações e quantidade de pessoas. São 219 mil m² de área construída e cerca de 9 mil colaboradores, que produzem 105.000 peças por dia. Segundo a Riachuelo, 85% dos fios e tecidos são certificados pelo menor impacto, apresentando um aumento de 6% comparado a 2024. Exemplos: algodão ABR (Algodão Brasileiro Responsável), viscose FSC (certificada pelo Forest Stewardship Council, de manejo responsável) e poliéster RSC ou GRS (reciclado e certificado Recycled Claim Standard ou Global Recycled Standard).
Nessas oportunidades de ampliação de repertório que tenho, além de entender os processos, políticas e práticas, quero falar com as pessoas, porque, afinal, são elas que dão vida a tudo. Foi, portanto, especial conversar com a costureira Cristina. Trabalhando lá há 13 anos, ela fala com orgulho dessa jornada. Conta que quer se aposentar na casa, daqui a três anos, e que a filha é funcionária da Riachuelo, na engenharia: “Para mim, fazer parte desse mundo é algo extraordinário. A gente veste o Brasil, das pessoas mais ‘pequenininhas’ às mais importantes, com peças muito lindas e elaboradas”, declara, com brilho nos olhos.
O vídeo que postei com a Cristina no meu perfil no Instagram (@sustentabilidade_by_me) viralizou. Até o momento, está com 470.783 visualizações, 6.652 compartilhamentos, 1.417 salvamentos e 1.576 repostagens. Além disso, a publicação atraiu 6.662 novos seguidores. Pessoas e seus depoimentos mobilizam, né? Recebi 1.386 comentários e sigo respondendo, nem que seja com um emoji. Vieram de ex e atuais funcionários, pequenas confecções e comunidades locais, todos orgulhosos de fazer parte desse movimento. Também há críticas negativas, e questionar é legítimo. Mas o que me incomoda (e isso vale para as redes sociais em geral) é que, em sua grande maioria, elas não querem a construção de um novo caminho; é apenas a crítica pela crítica. Faz parte.
A segunda etapa da expedição foi em uma plantação de algodão agroecológico do programa Agro-Sertão, viabilizada pela parceria com o Instituto Riachuelo, que garante a compra de toda a produção. Desde 2021, o projeto já beneficiou 247 agricultores em 17 municípios. O algodão é cultivado com práticas mais sustentáveis, de baixa irrigação e sem agrotóxicos. As camisetas feitas com o material têm rastreabilidade em blockchain: é possível conferir pelo seu QR Code a história de cada peça, do campo até a loja.
Em Cerro Corá, a cerca de 200 quilômetros de Natal, conheci a lavoura da Silvania, que está no projeto há dois anos. O primeiro foi desafiador, pois era um universo novo para ela, com os desafios naturais desse meio; o segundo já está mais fácil. Perguntei o que não a fez desistir: “Eu aprendi muito e continuo aprendendo. Pensei assim: se a Riachuelo está acreditando, por que eu não vou acreditar? Não tenho por que desistir. Eu vou persistir e quero cada vez melhorar mais, em quantidade e qualidade. Eu só quero continuar!”. Ela me deu esse depoimento mexendo no algodão com carinho e dizendo: “Esse é o fruto do trabalho” (veja o vídeo no meu perfil no Instagram: @sustentabilidade_by_me).
No terceiro momento, fomos à oficina de costura Zaja, que emprega cerca de 100 pessoas e faz parte do Pró-Sertão, projeto apoiado pelo Instituto Riachuelo. O objetivo é fomentar o desenvolvimento de oficinas de costura em 26 municípios do interior do Estado. Atualmente, 93 integram a iniciativa, criando 3 mil empregos. A produtividade desta rede gira em torno de 60 mil peças por dia. Em 2024, o Instituto Riachuelo comprou o equivalente a R$ 100 milhões destas oficinas.
Essas três histórias comprovam a transformação que o setor privado pode promover ao acreditar nas pessoas e em novos caminhos. Isso me inspira. E me inspira também ver que a moda percebeu a necessidade de mudar parâmetros rumo a um desenvolvimento de fato sustentável. Em 19 de julho, por exemplo, a União Europeia passou a proibir que grandes empresas destruam roupas, acessórios e calçados novos que permanecem em estoque sem serem vendidos. A medida faz parte do Regulamento de Concepção Ecológica de Produtos Sustentáveis e busca reduzir o desperdício, incentivar a economia circular e diminuir os impactos ambientais da indústria têxtil. Elas terão que encontrar alternativas para dar destino aos estoques encalhados, como venda, doação, reutilização e reciclagem dos produtos.
Vindo para a nossa realidade, vale conhecer a “Visão de Futuro 2030 do Setor Têxtil e de Confecção”, lançada pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção (Abit) e Senai CETIQT, que foi atualizada este ano. Trata-se de um estudo estratégico que reúne análises, tendências e diretrizes para o desenvolvimento da cadeia produtiva brasileira ao longo da próxima década. Na análise dos últimos dez anos, entre as forças transversais de transformação, estão sustentabilidade, descarbonização e circularidade. Os temas abaixo são os que devem influenciar de modo crescente a indústria no futuro:
Diferenciais competitivos do Brasil:
- Cadeia têxtil e de confecção completa no território nacional
- Matriz energética predominantemente renovável
- Biodiversidade com potencial para bioeconomia e materiais sustentáveis
- Mercado consumidor amplo e diversificado
Novas ênfases estratégicas:
- Bioeconomia e materiais sustentáveis
- Ecossistemas produtivos e de consumo integrados e inteligentes
- Circularidade e retenção de valor
Termino esse artigo da mesma forma que fiz no texto de 2021, por sua atualidade e força: “Quando o assunto é moda, uma palavra, um gesto, uma campanha pode induzir a mudança de pensamento e comportamento em milhões de pessoas. E a incorporação da sustentabilidade só vem reforçar, empoderar e trazer novas perspectivas. É como diz a ONU: ‘Ao utilizar a moda como uma forma de ativismo e empoderamento, colocando em prática políticas inovadoras e negócios sustentáveis, a “Aliança das Nações Unidas para a Moda Sustentável” não encara a sustentabilidade como uma limitação à moda, mas sim como um desencadeador para fortalecer a criatividade e a paixão do setor”.
Sonia Consiglio é SDG Pioneer pelo Pacto Global da ONU e especialista em Sustentabilidade
Fonte: Valor Investe




