Produção de novos fios a partir de tecidos já utilizados é nova tendência da indústria têxtil — Foto: Riachuelo / Divulgação
Valor Econômico – 17/07/2026
Empresários, representantes do governo, pesquisadores e empreendedores da economia circular iniciaram uma articulação para enfrentar um dos principais desafios da indústria da moda brasileira: ampliar o reaproveitamento dos resíduos têxteis gerados no país. O movimento foi lançado nesta quarta-feira (15), em São Paulo, durante um encontro promovido pela executiva Rachel Maia, sócia-fundadora da RM International e conselheira de administração de empresas, que reuniu representantes do setor privado, da academia e do poder público para discutir caminhos para transformar resíduos em matéria-prima e impulsionar a economia circular.
O debate ocorre em um momento em que o Brasil, que possui auma das maiores cadeias têxteis do Ocidente, descarta mais de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, volume equivalente a cerca de 5% de todos os resíduos sólidos urbanos gerados no país. Apesar desse potencial, apenas 6,9% dos materiais retornam ao ciclo produtivo como matéria-prima secundária.
“Apesar desse potencial para impulsionar uma economia circular robusta, apenas 6,9% dos materiais retornam ao ciclo produtivo como matéria-prima secundária, evidenciando um enorme espaço para geração de valor econômico, inovação e competitividade. Diante desse cenário, a agenda de resíduos têxteis deixa de ser exclusivamente ambiental e passa a ocupar posição estratégica para empresas, governo e academia”, afirma Rachel Maia.
Batizada de “Transformando Resíduos Têxteis: de Passivo para Ativo”, a iniciativa de reunir, na mesma discussão, representantes de diversos segmentos para traçar planos de ação para essa problemática, começou com um brunch realizado na residência da executiva, em São Paulo, nesta quarta-feira (15). O encontro reuniu representantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Ministério da Fazenda, de empresas como C&A, Grupo Shoulder, Veste e Pernambucanas, além de empreendedoras da economia circular, como a Cooperpac, liderada por Dona Cida Preta.
A proposta é iniciar um processo de escuta entre diferentes elos da cadeia para mapear desafios, identificar oportunidades de colaboração e construir uma agenda comum.
Segundo Rachel Maia comentou ao Um Só Planeta, a iniciativa nasceu da percepção de que a economia circular depende de uma atuação coordenada entre diferentes setores.
“A iniciativa nasceu da percepção de que a agenda de resíduos e economia circular precisa ser tratada de forma sistêmica. Por isso, desde o início, conectamos o setor acadêmico e buscamos reunir diferentes perspectivas: poder público, iniciativa privada, empreendedores e especialistas”, diz. Segundo ela, enquanto a universidade contribui com conhecimento, pesquisa e metodologia, o setor privado pode trazer à mesa de discussão os desafios reais e a capacidade de implementação. Em paralelo, o poder público oferece a visão institucional e regulatória e os empreendedores agregam inovação e novas soluções, muito necessário para dar escala às soluções desta indústria.
Em vez de apresentar soluções prontas, a proposta é começar pelo diagnóstico. “O objetivo é criar um espaço de escuta ativa para compreender o nível de maturidade dos participantes, identificar oportunidades de colaboração e construir uma agenda de trabalho baseada em evidências, com ações práticas e resultados concretos”, afirma Rachel Maia.
O desafio brasileiro segue uma tendência global. Segundo a Fundação Ellen MacArthur, um caminhão de roupas é descartado no mundo a cada segundo, e menos de 1% desse volume retorna à cadeia têxtil — outros 13% viram downcycling, produtos de menor valor como forros e enchimentos. A cadeia global de moda responde por 2% a 8% das emissões de gases-estufa e 9% da poluição por microplástico nos oceanos, além de consumir 215 trilhões de litros de água por ano, segundo a ONU (Pnuma); a Global Fashion Agenda estima a geração anual em 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis.
Os mesmos números foram apresentados por Carolina Grottera, subsecretária de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda, durante o encontro.
“Globalmente, são geradas cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, 80% desses resíduos vão para o descarte e menos de 1% das fibras descartadas retorna à produção de novos tecidos”, afirmou ao Um Só Planeta.
Estudos de consultorias internacionais também reforçam o potencial econômico da economia circular. A McKinsey estima que modelos circulares podem reduzir custos de produção em até 20% e elevar receitas em até 15%. A Accenture projeta um mercado de até US$ 4,5 trilhões até 2030, enquanto estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) sobre compartilhamento de paletes entre distribuidores e varejistas apontou redução de até 38% nos custos operacionais das empresas participantes.
Fonte: Valor Econômico
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