Porto de Ushuaia, na Terra do Fogo, Argentina, de onde zarpou o navio de cruzeiro MV Hondius — Foto: Getty Images

Um Só Planeta – 19/05/2026

A imprensa do mundo inteiro vem divulgando há alguns dias notícias alarmantes sobre o surto de hantavírus que aterrorizou os passageiros de um cruzeiro de luxo. O saldo até o momento é de três mortes e diversos contaminados. As vítimas, assim como os “casos contato” foram repatriados para seus países de origem e agora provocam o estado de alerta dos respectivos serviços de saúde. O que não tem sido divulgado adequadamente é que a origem desse drama pode estar num despejo medieval como os que assolam não somente a Argentina, mas também o Brasil e todos os países em desenvolvimento: os lixões a céu aberto.

Em termos cronológicos, entre as primeiras vítimas estavam os ornitólogos holandeses Leo Schilperoord e sua esposa. Dedicados ao estudo de aves, ao chegarem a Ushuaia, no extremo sul da Argentina, eles aproveitaram a oportunidade para observar o caracará-de-garganta-branca, ave muito rara que habita naquela região. Experientes, eles sabiam que poderiam observá-las num lixão próximo da cidade, onde estes animais costumam se alimentar de carniça e sobras de alimentos. Mas ali, esbarraram com o infortúnio. Esse lixão é um ambiente propício para a proliferação de roedores, como o rato-pigmeu-de-cauda-longa, transmissor da cepa andina do Hantavírus.

Ainda que denominado oficialmente “Aterro Sanitário de Ushuaia”, o local não aplica as rigorosas normas técnicas exigidas na operação de aterro um sanitário. Localizado na entrada da cidade, próximo ao Canal de Beagle, em uma área que desperta grandes preocupações ambientais, nele se descarta o lixo a céu aberto. Por isso é chamado “basural a cielo abierto” (lixão a céu aberto) pela imprensa, por ambientalistas e pela população local.

Mais do que uma possível fatalidade isolada, o caso é revelador do enorme perigo que um lixão representa para o meio ambiente e para a saúde humana. Este é um drama que reforça o ímpeto da luta pela erradicação dos cerca de três mil lixões que ainda existem em nosso país.

São milhares de focos de destruição ambiental. Geram chorume, um líquido escuro e fétido que se infiltra no solo e contamina o lençol freático, envenenando rios e nascentes que abastecem cidades inteiras. A decomposição dos resíduos libera gases tóxicos, sobretudo o metano, potencializando o aquecimento global e intoxicando as comunidades que vivem no entorno.

Mas ainda pior é o ataque à saúde pública promovido por um exército de vetores para os quais esses lixões servem de viveiro: ratos, moscas, baratas, mosquitos e outros insetos que se reproduzem em profusão. A lista de doenças que ali germinam é apavorante: leptospirose, dengue, Zica, Chikungunya, febre amarela, leishmaniose, tifo, tétano, hepatite e inúmeras verminoses. Crianças brincam perto desses monturos, catadores recolhem materiais recicláveis sem qualquer proteção, famílias inteiras respiram o ar poluído e utilizam água contaminada.

Além dos danos humanos e ambientais, os lixões e a gestão inadequada de resíduos geram prejuízos estimados em cerca de R$ 100 bilhões por ano ao Brasil. Além disso, cada lixão emite sentenças de enfermidade ou morte que não podemos ignorar. Quanto sofrimento ainda será necessário para enfrentarmos esse problema com a seriedade que ele exige?

Em muitos locais do Brasil, os lixões afastam investimentos, degradam o turismo, reduzem a qualidade de vida e perpetuam ciclos de pobreza e abandono. Erradicar os lixões não é apenas uma pauta ambiental ou de saneamento básico. É uma obrigação moral, sanitária e civilizatória.

Lutemos para que um problema que já deveríamos ter resolvido no século passado não venha a se tornar a origem da próxima pandemia.

Pedro Maranhão é presidente da ABREMA – Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente.

Fonte: Um só Planeta

https://umsoplaneta.globo.com/opiniao/noticia/2026/05/19/o-hantavirus-o-lixao-e-o-caracara-de-garganta-branca.ghtml