Usina de Captacao de biogas – em primeiro plano – e de biometano (branca, em segundo plano): projetos em alta em SP Foto: FOTO: Divulgacao/Orizon
Estadão – 14/05/2026
O número de licenças ambientais emitidas para projetos de biogás e biometano em São Paulo cresceu 235% entre 2024 e 2025, passando de 26 para 87, segundo levantamento da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) obtido com exclusividade pelo Broadcast.
Os números englobam licenças emitidas para a produção do combustível, que somaram 53, e para consumo próprio, com 34. Considerando apenas o biometano, foram emitidas nove licenças, o equivalente a 10% do total. O avanço ocorre em meio à expansão de investimentos privados em transição energética e combustíveis renováveis. Um exemplo é a iniciativa da parceria entre Orizon e Edge, do grupo Cosan, para a construção da Onebio, um investimento de R$ 450 milhões na maior planta de biometano o País, que começou a operar em março deste ano em Paulínia (SP).
Na outra ponta, empresas como Natura, Nissin Foods, Embraer e Unilever já passaram a utilizar o combustível em suas fábricas, como parte das iniciativas para reduzir as emissões. Para garantir acesso ao combustível, distribuidoras de gás como Comgás e Necta criam iniciativas para injetar biometano em sua rede, enquanto e a Ultragaz avança na sua estratégia de comercializar o biometano comprimido, transportado por caminhões até grandes clientes industriais. continua após a publicidade
Na avaliação da Cetesb, a aceleração da emissão das licenças também foi impulsionada pelo amadurecimento das regras para o licenciamento desse tipo de empreendimento em São Paulo. Nos últimos dois anos, o governo paulista e a agência estabeleceram diretrizes para a elaboração de normas procedimentais ao licenciamento ambiental. A partir disso, o órgão ambiental estruturou procedimentos técnicos com critérios padronizados para avaliar as diferentes etapas da cadeia do biometano, como captação do biogás em aterros e estações de tratamento, purificação para transformar o gás em biometano e formas de armazenamento e transporte.
A despeito da melhora no regramento, o presidente da Cetesb, Thomaz Toledo, afirma que o aumento dos licenciamentos reflete uma tendência, mais do que um salto pontual por demanda reprimida que tenha se normalizado pela evolução normativa. “Essa modernização do arcabouço regulatório vem porque há um interesse crescente nesse combustível”, afirmou à Broadcast. Segundo ele, o progresso feito no processo de licenciamento ambiental teve por objetivo justamente permitir destravar investimentos. “Quando falamos de produção de biometano, os projetos têm um capex razoável e precisam de financiamento, que exige licenciamento ambiental, é uma etapa obrigatória; por isso, olhamos isso com cuidado, para que o licenciamento ambiental, primeiro, não seja um problema e, segundo, ajude esses projetos a virarem realidade”, disse.
A secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo, Natália Resende, concorda que os avanços das normas de licenciamento ambiental trouxeram mais segurança jurídica e previsibilidade para os processos, resultando em maior potencial investimento para o Estado. No entanto, cita também um trabalho mais amplo desenvolvido pelo governo, de elaboração de uma estratégia climática para 2050, para induzir o desenvolvimento multisetorial para a descarbonização da economia paulista, o que envolveu também o desenho de um plano de voltado para adaptação e resiliência energética.
“Foi a partir daí que começamos a ver um potencial muito grande em relação ao biogás e biometano”, disse, citando estudo da Federação de Indústria de São Paulo (Fiesp) segundo o qual o Estado teria possibilidade de abastecer cerca até 50% da indústria paulista com biometano.
De acordo com ela, o trabalho desenvolvido, que olha conjuntamente para a adaptação e resiliência de outros recursos, também têm colaborado na atração de investimentos. “O que a gente ouve dos investidores é o interesse de vir para São Paulo, primeiro, pela questão de água, depois pela questão de energia, e a segurança energética que a gente vem com o biometano é muito importante, faz muita diferença, pelas conversas que a gente tem tido”, disse.
Produção crescente Atualmente, o Estado de São Paulo conta com nove plantas de biometano autorizadas, que somam uma capacidade de produção da ordem de 755 mil metros cúbicos por dia (m³/dia), com perspectiva de chegar a 1 milhão de m³/dia até o fim do ano, segundo a Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil). Outras sete unidades estão em fase de autorização pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), com potencial adicional de cerca de 700 mil m³/d. Embora o volume seja crescente, ainda é pequeno frente o potencial estimado de até 6,4 milhões de m³/d, dos quais 84% proveniente do setor sucroenergético e 16% do resíduo sólido.
Por ora, a capacidade licenciada é de 2,05 milhões de Nm³/dia, liderada pelo setores de resíduos sólidos e saneamento, responsáveis por 41,2% das licenças emitidas em 2025, o equivalente a 47 projetos. O governo paulista vislumbra novas fronteiras de desenvolvimento no segmento e trabalha na implementação de consórcios de municípios para gestão de resíduos, de forma a gerar escala e permitir maior “valorização” dos volumes produzidos nas cidades de menor porte, incluindo a perspectiva de produção de biometano.
“Em São Paulo como um todo produzimos 40 a 44 mil toneladas por dia (ton/d) de resíduos, mas em 536 dos 645 municípios são produzidos menos de 50 mil ton/dia”, explicou Natália, salientando que a criação de consórcios também permite a redução de custos e menor impacto ambiental e social. Inicialmente, estão em implementação três consórcios, que avaliarão as possibilidades de valorização dos resíduos a partir de aterros já existentes.
Fonte: Estadão




