O Empreiteiro  – 07/04/2026

A engenharia ambiental brasileira vive um momento de ruptura. Embora a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e o Novo Marco do Saneamento tenham imposto o fim dos lixões, o país ainda lida com cerca de 3 mil lixões ativos e 40% dos resíduos destinados inadequadamente.

Para reverter esse cenário, o setor evoluiu do conceito de aterro sanitário convencional para os Centros de Tratamento e Transformação de Resíduos (CTTR). Liderados por empresas como a Marquise Ambiental, esses complexos funcionam como verdadeiras biorrefinarias urbanas.

O Conceito CTTR: Engenharia e Economia Circular

Segundo Hugo Nery, conselheiro da Abrema, o segredo para destravar a infraestrutura ambiental brasileira não é apenas tecnologia, mas escala e governança. O modelo CTTR substitui a simples disposição final por um hub de tecnologia ambiental, focado em quatro blocos:

  1. Engenharia de Base: Impermeabilização robusta e controle de estabilidade geotécnica.
  2. Monitoramento Contínuo: Gestão ativa de emissões e efluentes (lixiviados).
  3. Rastreabilidade: Controle operacional rigoroso e conformidade técnica.
  4. Valorização Energética: Captura de biogás para produção de biometano e eletricidade.

Biometano: O Caso de Sucesso de Fortaleza e Manaus

A valorização do biogás é o maior exemplo de como o lixo se torna um ativo econômico. O CTTR de Fortaleza, localizado em Caucaia, é um marco histórico:

  • Inovação: Primeira planta autorizada pela ANP a injetar biometano diretamente na rede de distribuição.
  • Impacto: Responsável por 15% do gás comercializado no Ceará.
  • Capacidade: Recebimento de 180 mil toneladas mensais de resíduos.

A experiência foi replicada no CTTR Amazonas, em Manaus. Com investimento de R$ 200 milhões, a unidade foi adaptada para o regime de chuvas intensas da Amazônia e tem capacidade para atender até 16 municípios em um raio de 150 km, promovendo a regionalização do saneamento.

Desafios para a Universalização da Destinação Adequada

Apesar do potencial energético — apenas o Rio de Janeiro poderia gerar 290 milhões de m³ de biometano/ano —, o Brasil enfrenta gargalos institucionais:

  • Escala: Municípios pequenos dependem de consórcios intermunicipais para viabilizar o Capex elevado.
  • Segurança Jurídica: Necessidade de contratos de longo prazo e PPPs bem estruturadas.
  • Licenciamento: Dificuldade na obtenção de áreas extensas e compatíveis com a logística de coleta.

Comparativo: Aterro Sanitário vs. CTTR

FuncionalidadeAterro ConvencionalModelo CTTR (Marquise)
Objetivo PrincipalDisposição Final SeguraValorização e Transformação
SubprodutosBiogás (queima/controle)Biometano e Energia Elétrica
Tratamento de OrgânicosDecomposição em CélulaCompostagem e Biodigestão
Tecnologia de EfluentesLagoas de ReservaçãoOsmose Reversa Avançada

Fonte: O Empreiteiro

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