As guerras do lixo: Os despojos de um negócio global bilionário – Alexander Clapp – Trad. Berilo Vargas
Nexo Jornal – 06/03/2026
Poucos meses depois que uma carga de lixo ocidental foi queimada perto das árvores cítricas de İzzettin Akman e semanas depois que Emine Erdogan proclamou a Turquia um país de “lixo zero”, o Partido Comunista da China informou ao mundo que também estava recalibrando suas relações com o lixo.
Eles simplesmente não aceitariam mais os detritos alheios.
Desde o começo dos anos 1990, quando a garrafa descartável de Coca- -Cola surgiu como grande objeto de comércio global, a China vinha recebendo metade do plástico jogado em lixeiras de recicláveis no mundo inteiro. Se você está lendo isto agora, pare um pouco para pensar que centenas de quilos de lixo que você produziu ao longo da sua vida, sem nunca mais pensar neles, provavelmente adquiriram uma estranha segunda existência no esquema batata quente. Sacos de cereal empoeirados, canudos de refrigerante dobrados, caixas de ovos de isopor achatadas — durante anos, todas essas coisas que você achou imprestáveis a ponto de jogar fora despreocupadamente empreenderam jornadas árduas, poluentes, planetárias, sendo transportadas primeiro para um local de recuperação de materiais a dezenas ou centenas de quilômetros de sua casa, indo de lá para um porto, e depois, de navio, por milhares de quilômetros de distância, até chegar a centenas de aldeias chinesas que se especializaram em processar o conteúdo de sua lixeira de recicláveis.
Dos Estados Unidos, grande parte desse lixo foi levada por navios em contêineres que tinham cruzado o Pacífico com bens de consumo baratos — brinquedos de cachorro, chaveiros, paus de selfie, por exemplo — antes de voltarem para a China transportando (o que mais poderia ser?) os plásticos e papéis em que esses bens de consumo tinham sido embalados. No começo dos anos 2000, o maior produto de exportação dos Estados Unidos para a China eram coisas que os americanos jogavam no lixo. Pelo menos a mesma quantidade de plástico era descartada pela União Europeia, por países como a Alemanha, que se autoproclamam defensores exemplares do meio ambiente, cujas metas estatais de reciclagem muitas vezes guardavam um segredo nada lisonjeiro: a maior parte do plástico que os alemães se gabavam de “reciclar” na verdade ia parar do outro lado do mundo, onde seu verdadeiro destino era nebuloso.
A China pode ter informado ao mundo em 2017 que não aceitaria mais seu lixo plástico, mas isso não impediu os países ricos de tentar se livrar dos detritos enviando-os para os lugares mais distantes possíveis. Muitos simplesmente descobriram novos compradores desesperados — ou fronteiras desprotegidas — e continuaram a proclamar que estavam fazendo reciclagem. Em poucos meses o lixo da Grécia começou a aparecer na Libéria. Os resíduos italianos estragaram as praias da Tunísia. O plástico holandês inundou a Tailândia. A Polônia foi obrigada a contratar uma polícia especial para monitorar os detritos que entravam em caminhões vindos da Alemanha, enquanto policiais franceses, que antes conferiam para-lamas de carros oriundos da vizinha Bélgica à procura de heroína, foram incumbidos de inspecionar porta-malas à procura de sacos de lixo. As exportações de resíduos da Europa para a África quadruplicaram, a Malásia passou a ser o maior destino mundial de lixo plástico dos Estados Unidos, e as Filipinas ameaçaram ir à guerra com o Canadá em razão dos contêineres de fraldas sujas despachados para sua capital, Manila. E, menos de um ano depois do lançamento do Projeto Lixo Zero pela sra. Erdogan, mais de 200 mil toneladas de lixo plástico que nos trinta anos anteriores teriam ido para o sudeste da China seguiram para o… sudeste da Turquia.
Em sua forma mais inofensiva, o comércio global de lixo transfere resíduos dos países mais ricos para os lugares menos capazes de lidar com isso. Em sua forma mais nefasta, é uma atividade descaradamente criminosa.
Nos dois casos, a Turquia se mostrou um exemplo bem representativo. A maior parte do plástico que lá chegava vinha do Reino Unido, cujos “corretores” de lixo — as empresas que funcionam como intermediárias entre a coleta, quase sempre financiada publicamente, e o negócio que acontece com os detritos, atividade quase sempre privatizada — tinham descoberto um escandaloso incentivo para exportar resíduos. Eles eram pagos por um Estado que, na esteira do Brexit, lutava para encontrar motoristas de caminhão e estivadores, o que resultava em custos de transporte cada vez maiores, de um lado, e enormes atrasos e montanhas de lixo, do outro. Justo quando a China parou de receber o plástico do mundo, o Reino Unido desistiu de lidar com a gestão de resíduos, transferindo essa responsabilidade para qualquer interessado. Um corretor de lixo britânico, se afirmasse ter coletado uma tonelada de plástico para “reciclagem”, poderia ganhar até setenta libras. Mais de 250 mil corretores de lixo no Reino Unido acabariam sendo apanhados trabalhando sem autorização legal, arrivistas do lixo querendo ganhar um dinheiro fácil com a tentativa desesperada do Reino Unido de parecer um modelo global de ambientalismo — e com sua necessidade, ainda mais desesperada, de empurrar o problema dos resíduos plásticos para outros resolverem. A situação era tão absurda que um jornalista se deu ao trabalho de registrar seu peixinho-dourado morto como corretor profissional de lixo: em quatro minutos, Algernon the Goldfish obteve licença para começar a transportar refugo britânico.
A melhor parte? Ninguém parecia muito preocupado com o destino de todo aquele lixo. Logo metade dos resíduos plásticos que o Reino Unido insistia em dizer que estavam sendo “reciclados” na verdade era enviada para o exterior, sendo mais ou menos 50% disso para a Turquia.
E isso apenas no primeiro ano. Três anos depois do anúncio do Projeto Lixo Zero da sra. Erdogan, mais de 750 mil toneladas de plástico velho foram enviadas da Europa para a Anatólia, transformando a Turquia, supostamente um país sem lixo, no maior destino de detritos plásticos do planeta. O equivalente à carga de um caminhão de resíduos entrava no país a cada seis minutos.
A bem da verdade, parte do lixo plástico enviado para o sudeste da Turquia era aproveitada. Seu destino, no entanto, quase nunca era voltar à forma original, ou seja, tornar-se de novo uma embalagem de doce ou de maquiagem; esses detritos eram transformados em produtos domésticos de má qualidade. Através de um processo espantosamente intenso em termos de consumo de energia e liberação de substâncias tóxicas, o plástico ocidental era higienizado, triturado em flocos, quimicamente reduzido e convertido em poliéster, que nos últimos anos começou a substituir o algodão turco, mundialmente famoso, como principal matéria-prima da indústria de vestuário daquele país. Se não fosse transformado em manta de carpete ou em pano de prato, parte do plástico era queimada em fábricas de cimento da Turquia, fornecendo combustível barato ou gratuito para uma indústria de construção que ganhava dinheiro levantando exércitos de prédios residenciais na Anatólia (muitos dos quais desmoronaram em fevereiro de 2023, quando um grande terremoto sacudiu a região).
Mas grande parte do plástico que chegava ao sudeste da Turquia era imprestável ou sujo demais para ser convertido em tapete de banheiro ou incinerado como combustível. Seu destino seria o mesmo do lixo que İzzettin Akman viu ser queimado perto dos seus pomares: ser descartado secretamente num lugar qualquer do interior e passar as próximas dezenas de milhares de anos se decompondo em milhões de minúsculos pedaços de plástico, que acabariam entrando no mar, destruindo áreas agrícolas e se espalhando pelas encostas.
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