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Capital Reset – 11/03/2026

Os principais nomes do setor de biocombustíveis e do agronegócio brasileiro se reuniram nesta semana no centro financeiro de São Paulo. A razão: defender o seu lugar nos mapas do caminho para longe dos combustíveis fósseis – tanto o nacional quanto o internacional. 

A Coalizão pelos Biocombustíveis, que reúne o setor produtivo e frentes parlamentares,  apresentou uma contribuição formal para o mapa do caminho brasileiro de afastamento dos fósseis, defendendo que a bioenergia seja o eixo central da estratégia de transição energética e industrial do país.

O documento foi apresentado no fim de fevereiro na Câmara dos Deputados. Na noite desta segunda-feira (9), ele foi entregue ao presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, que trabalha no roteiro internacional de como o mundo pode reduzir sua dependência dos fósseis. 

A plateia contou com a presença de nomes como Rubens Ometto, controlador da Cosan, e de Luiz Carlos Trabuco, presidente do conselho de administração do Bradesco. 

O que está em jogo é o papel dos biocombustíveis na transição energética. 

O setor enfrenta resistência principalmente da Europa. O debate “food vs fuel” questiona se biocombustíveis feitos de culturas agrícolas competem com a produção de alimentos e pressionam a abertura de novas áreas de cultivo – aumentando o desmatamento.

“Em alguns países do mundo, inclusive os europeus, houve uma tentativa de produção de biocombustíveis que teve uma resistência muito grande. Mas é um problema específico desses países que não conseguiram compatibilizar [a produção do combustível com a de alimentos]”, disse Corrêa do Lago ao Reset.

“Mas o que o Brasil mostra é que a agricultura tropical é uma outra dimensão [com até três safras por ano]. Muitos países europeus ainda acham que a agricultura deles é a referência da agricultura mundial”, completou.

Mas o argumento contrário também encontra eco aqui. O aumento da mistura de biodiesel no diesel de 14% para 15% nas bombas de combustíveis brasileiras foi temporariamente suspenso no ano passado – o aumento do percentual está previsto na Lei do Combustível do Futuro. Segundo o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), a suspensão se deu para evitar pressão sobre os preços de alimentos e insumos agrícolas.

“Em 2025, os biocombustíveis chegaram a ser apresentados como os vilões da escalada do preço dos alimentos”, observa o documento. O setor argumenta, porém, que a alta do preço do óleo de soja, por exemplo, foi causada por outros fatores, como quebra de safra e taxa de câmbio (a soja é precificada em dólar, o que afeta o mercado doméstico). 

Paralelamente, também corre o debate sobre qual deve ser a principal rota de descarbonização do setor de transportes: biocombustíveis ou eletrificação. O governo defende um caminho multirrotas, em que vários caminhos podem coexistir, mas eles competem por espaço na política pública e nos investimentos.

Efeito da guerra

O  momento escolhido para a apresentação das propostas do setor de biocombustíveis e do agro coincidiu com a crise no Golfo Pérsico, que deu um empurrão à narrativa. A guerra deflagrada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã provocou a alta dos preços do petróleo e gás – o valor do barril do petróleo variou US$ 30 dólares durante o dia só nesta segunda. 

“Essa guerra tem acentuado a percepção do risco geopolítico da presença do petróleo e do gás como uma energia que cria tantas dependências. Dois terços da população mundial vivem em países que importam petróleo e gás”, disse Corrêa do Lago. 

O conflito mostra a dificuldade sobre a previsibilidade de uma economia dependente de fósseis, afirmou o embaixador. “Alternativas são absolutamente essenciais e as que já existem, sobretudo de países em desenvolvimento, são as mais preciosas.”

Diante da escalada do preço do petróleo, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) solicitou o aumento da mistura obrigatória de biodiesel ao óleo diesel no país para 17%. 

No ofício encaminhado ao Ministério de Minas e Energia (MME) na semana passada, a entidade cita a alta acumulada de 20% no preço do barril desde o fim de fevereiro.

“Hoje vivemos, em alguns momentos, risco de escassez de diesel”, disse o deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que é coordenador da Coalizão de Biocombustíveis. 

O grupo é formado pelas frentes parlamentares do biogás e do biometano; da agropecuária (FPA); do biodiesel; e do etanol da Câmara dos Deputados, e apoiado pelas entidades empresariais desses setores: Abiogás, Abiove, Abrema, Aprobio, Bioenergia Brasil, Ubrabio, Unem e Unica.

“Temos a oportunidade de fazer um avanço na mistura [do biodiesel no diesel] que, sem dúvida, vai diminuir esse risco e criar muitas oportunidades”, afirmou o deputado.  

Propostas

A proposta da Coalizão dos Biocombustíveis para o mapa do caminho brasileiro combina metas de expansão, instrumentos de política pública e uma estratégia gradual de redução do uso de petróleo, organizada em fases até 2040.

O grupo argumenta que o Brasil já possui uma base produtiva relevante e poderia liderar a substituição de combustíveis fósseis no transporte por meio de etanol, biodiesel, biometano, combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel verde, e rotas associadas a hidrogênio e combustíveis sintéticos.

A ideia é aproveitar as vantagens competitivas do agro e da bioeconomia.

Entre as propostas concretas estão: avançar nas misturas obrigatórias, como o aumento do biodiesel no diesel; consolidar a expansão do etanol na matriz de transportes; criar mercado para SAF e diesel renovável na aviação e transporte pesado; e ampliar a produção e uso de biometano para substituir gás fóssil.

Uma das propostas é criar um Fundo Nacional para a Transição Energética, financiado por royalties do petróleo, participações especiais e dividendos da exploração de óleo e gás. “A viabilização da transição energética exige fontes estáveis, previsíveis e soberanas de financiamento”, diz o documento.

A coalizão também defende segurança regulatória e previsibilidade, citando incertezas recentes como a judicialização do RenovaBio. “É necessário um sinal regulatório claro, estável, capaz de orientar decisões de investimento intensivas em capital  e com horizontes de maturação de longo prazo”, diz a proposta. 

O documento propõe uma abordagem sistêmica, integrando políticas de energia, indústria, logística, agropecuária e comércio exterior.

Fonte: Capital Reset