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Capital Reset – 03/03/2026
Menos de 48 horas depois do primeiro bombardeio, a campanha militar conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã parece transbordar para outros países do Oriente Médio.
O mundo contempla a perspectiva de uma guerra regional na área do planeta que é sinônimo de petróleo. Neste momento de incerteza, previsões sobre um novo choque energético global são exercícios de adivinhação.
Mas com o gás natural a história é diferente. A experiência da invasão da Ucrânia está viva na memória. A ruptura no fornecimento do combustível russo para a Europa desencadeou inflação, alta dos juros e uma crise que ainda amarra as economias do continente.
Os reflexos também foram sentidos no Brasil, e o cenário pode se repetir. O país depende de gás natural liquefeito (GNL) para fazer funcionar as usinas térmicas que entram em ação para garantir eletricidade quando as hidrelétricas não produzem o suficiente.
Esse gás não vem do Golfo Pérsico, mas o preço que o país paga é afetado pelo mercado internacional – e pelo aumento da concorrência pelos carregamentos.
A alta do barril de petróleo foi de 9% nesta segunda-feira (2). A do gás foi de 39% no mercado europeu e 41% no asiático. Um dos motivos foi um ataque de drones iranianos que obrigou a QatarEnergy, maior empresa do mundo de GNL, a interromper sua produção.
E o Irã bloqueou o tráfego no estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto de todo o gás do mundo transportado em navios de carga.
Há quatro anos, o conflito na Europa teve impacto maior nos preços, pelo menos inicialmente. Mas a possibilidade de um confronto prolongado no Oriente Médio e as características únicas do comércio global de gás despertam mais preocupação entre os especialistas que as consequências no mercado de petróleo.
Contágio no preço
Cerca de 80% do gás liquefeito produzido no Golfo vai para o mercado asiático, e o restante para a Europa. Uma interrupção prolongada no fornecimento causaria um efeito dominó no mundo inteiro, potencialmente chegando ao Brasil.
Cerca de 90% do gás consumido no mundo viaja distâncias relativamente curtas, em gasodutos. Os contratos de fornecimento têm prazos longos, e os valores estão menos sujeitos a oscilações abruptas.
O GNL é negociado em um mercado livre. Embarcado em navios, o gás em estado líquido pode ir para qualquer lugar. O preço é determinado a cada transação, com base em índices de referência internacionais e custos logísticos.
A maior parte do gás liquefeito comprado pelo Brasil vem dos Estados Unidos. Em 2022, nos primeiros meses da guerra na Ucrânia, os europeus passaram a demandar o GNL americano.
Com a nova concorrência, a conta para as usinas térmicas brasileiras, o principal consumidor desse combustível, ficou muito mais cara. No inverno de 2022, quando elas precisaram ser acionadas para suprir o déficit das hidrelétricas, o preço do GNL era negociado por mais de duas vezes o preço pré-guerra.
Se o conflito no Oriente Médio se estender, a situação de quatro anos atrás pode se repetir. O Operador Nacional do Sistema (ONS), que faz a gestão da rede elétrica do país, alertou que as chuvas do verão não foram suficientes para garantir níveis adequados nos reservatórios para o período de seca.
“O impacto será principalmente na inflação, por conta do aumento do custo da energia elétrica”, diz Cassio Cardoso Carvalho, assessor político do Inesc Brasil, um centro de estudos independente.
Garantia de energia
Guerras são casos extremos do efeito que as variações no preço de um insumo pode ter sobre a economia brasileira. Mas elas colocam em evidência desafios que devem perdurar por muito tempo.
No Plano Decenal de Energia, que traça diretrizes para o desenvolvimento do setor energético brasileiro no período de 2025 a 2034, a expansão do uso de térmicas a gás aparece como garantia de “energia firme” para dar suporte à intermitência de fontes como eólica e solar.
“Não tem um jeito da gente conseguir operar ou repensar a maneira como a gente estrutura o setor elétrico brasileiro, para que a gente precise menos dessa ponte?”, diz Stefania Relva, diretora de transformação industrial do Instituto E+ Transição Energética, um centro de estudos especializado.
Países como Austrália, China e Estados Unidos contornaram o problema com grandes sistemas de baterias. Eles armazenam a eletricidade excedente das renováveis e a injetam na rede conforme a necessidade – exatamente o papel das termelétricas.
A descarbonização é outro argumento. “A transição energética para longe dos combustíveis fósseis não é apenas para reduzir emissões. É também uma agenda de segurança energética”, diz Edlayan Passos, especialista em energia no Instituto E+.
Alternativa
O Brasil já produz mais gás natural do que conseguiria usar, mas boa parte volta para o lugar de onde veio. Todos os dias, a Petrobras reinjeta nos poços em alto-mar 75 milhões de metros cúbicos do gás que é extraído junto com o petróleo. O consumo total do país é de cerca de 53 milhões de metros cúbicos diários.
Um dos principais motivos é maximizar o rendimento das jazidas. O gás ajuda a recuperar mais petróleo de cada poço.
Mesmo que a empresa abrisse mão da produtividade, aproveitar o recurso não é simples. Seria necessário construir a infraestrutura para trazer o combustível para o continente.
Outra alternativa é o biometano, ou gás natural renovável. Ele pode ser produzido com inúmeras matérias-primas, entre elas os resíduos orgânicos de aterros sanitários.
O biometano é idêntico ao gás fóssil e pode substituí-lo sem necessidade de adaptação nos equipamentos ou na infraestrutura de distribuição e armazenamento.
O potencial teórico de produção – 120 milhões de metros cúbicos por dia – também seria suficiente para atender a demanda nacional. Mas essa indústria ainda está dando os primeiros passos e tem de vencer obstáculos, entre eles fazer chegar o produto até o consumidor.
‘O gás mais caro do mundo’
A indústria nacional, grande consumidora do gás natural encanado, aponta um outro problema: o gás custa caro demais. A queixa precede as guerras.
No fim do ano passado, o diretor de relações institucionais da CNI, Roberto Muniz, afirmou que a redução do preço do gás natural é uma condição fundamental para que a indústria brasileira se torne mais competitiva. “Estamos discutindo não só a competitividade da indústria nacional, mas a sua sobrevivência, que tem o desafio intransponível do preço do gás”, disse Muniz à época.
Segundo ele, o preço do produto no Brasil é um dos mais elevados do mundo: em 2024, custou em média US$ 18,96 por milhão de BTU para a indústria local, cinco vezes superior ao dos Estados Unidos (US$ 3,75 por milhão de BTU).
Marcos Mortari, responsável por precificação de gás natural no Brasil da consultoria Argus, afirma que ainda é cedo para ter clareza sobre os impactos de uma possível alta nos preços do gás.
“Existem diferenças relevantes entre as estratégias de aquisição de cada player do mercado e possibilidades de substituição do gás natural por outras fontes.”
Fonte: Capital Reset




