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O globo – 06/08/2025

Não há maior evidência do fracasso da Política Nacional de Resíduos Sólidos, sancionada em 2010 no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do que um fato singelo constatado em reportagem do GLOBO: o local previsto para a realização da conferência global do clima, a COP30, fica a 95 quilômetros de um lixão que queima a céu aberto, no município paraense de Curuçá.

O primeiro prazo legal para o fim dos lixões no Brasil venceu em 2014, mas foi prorrogado sucessivamente até o ano passado. E os lixões continuam por aí, como resultado da omissão das autoridades, da falta de fiscalização e de punição. Embora não haja dados oficiais, uma pesquisa do IBGE revelou que 1.700 municípios, ou mais de 30% do total, admitiam ainda ter lixões a céu aberto em 2023. No mesmo ano, o Ministério do Meio Ambiente informou haver 463 em atividade.

A Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente afirma que pode haver 3 mil áreas de descarte clandestino de lixo no país. Essas montanhas de lixo costumam queimar por combustão espontânea ou por incêndio intencional. A reportagem do GLOBO treinou um modelo de inteligência artificial(IA) para, por meio de imagens de satélite, identificar os lixões, excluindo os aterros sanitários legais (equipados com dispositivos para coletar chorume).O modelo constatou que, nos últimos dez anos, em todos os estados, houve 2.974 alertas de incêndio em 740 lixões—um foco a cada dois dias. O fogo libera para a atmosfera algo como 6 milhões de toneladas de gases de efeito estufa por ano.

O impacto dos lixões no meio ambiente equivale às emissões de uma cidade do porte de Campinas(SP), com 1,1 milhão de habitantes, ou a uma frota de 3 milhões de carros a gasolina. “O lixo vai se decompondo, e a matéria orgânica produz metano. É um supergás de efeito estufa, 30 vezes mais poderoso para absorver calor que o gás carbônico. A proibição de queima de resíduos deveria ser muito mais efetiva”, afirma o cientista do clima Carlos Nobre, da Universidade de São Paulo (USP).

Os prejuízos para a saúde pública também são grandes. Não é apenas metano que os incêndios propagam. Por queimarem toda sorte de entulho, plástico, lixo eletrônico e orgânico, também liberam substâncias cancerígenas, como dioxinas, furanos, enxofre e mercúrio. Doenças como febre tifoide, leptospirose e até peste bubônica podem ser causadas pelo contato direto ou indireto com o lixo, afirma estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Outro efeito grave dos lixões perto de aeroportos é a proliferação de aves como urubus, que se chocam com as aeronaves. Desde 2021, tem sido registrada no Brasil uma média anual de 2.100desses choques. A leniência do poder público com os lixões a céu aberto é inaceitável e constitui grave ameaça à população. A lei manda que eles sejam extintos. Já deveriam ter sido.

Fonte: O Globo

https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial/coluna/2025/08/leniencia-do-poder-publico-com-lixoes-e-uma-ameaca-a-populacao.ghtml